sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Afterlife



Esse é o clipe do Arcade Fire, feito a partir do filme Black Orpheus (1959), baseado na obra do Vinicius.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Permanecer

Quando criança, morei um tempo com a minha avó, em um sítio. Minhas primeiras recordações são desta época. Os banhos no rio – que passava atrás de casa e murmurava baixinho o ano inteiro – as brincadeiras com meus tios, os mágicos dias de domingo, quando íamos à missa e depois passávamos o dia saboreando o passar do tempo lento, à sombra de um ingazeiro.
A avó ficou viúva muito cedo e viu o mundo exigir dela uma cruz bem pesada. Mais pesada do que ela podia carregar? Não sei. Ela ia indo... Acordava às cinco da madrugada para fazer fogo no fogão à lenha e preparava o café. Seus filhos logo despertavam também para os afazeres na roça. Eu podia ser o último, pois era café-com-leite, por assim dizer: a idade era pouca e as responsabilidades também.
Assim, a avó e eu éramos antagônicos, residíamos situações diferentes na vida, pertencíamos a hierarquias distintas. Ela liderava. Eu estava entregue à ludicidade. Descer o morro de cachopa, brincar com bichos, pescar e inventar estripulias eram meus “compromissos”. Eu tinha liberdade.
Mesmo quando eu acompanhava um adulto em alguma atividade séria, para mim, tudo parecia festa. De tardezinha, nossa líder ia ordenhar as vacas para garantir nosso leite e me levava junto. Aí está um dos momentos mais bonitos que vivi em meus verdes anos. Lembro-me que conversávamos sobre muitas coisas. Eu perguntava quanto tempo meu pai e minha mãe iam demorar para me fazer nova visita. Ela dizia que logo-logo e pedia para eu olhar a lua, porque era a mesma que, naquele momento, iluminava os dois, a quilômetros dali. Em seguida, ela espirrava o leite direto do ubre da vaca para a minha boca e nós dávamos risada, com aquela pequena bagunça. Hoje sinto orgulho quando penso que a ajudei dar mais leveza ao seu dia-a-dia.
Trocávamos, pois. Ela esculpia, com mãos trabalhadoras, as bases da minha formação com exemplos e afeto, ao passo que eu, sem saber, mantinha viva, nela, a alegria pura que as crianças podem proporcionar.
Pensando bem, agora entendo o porquê de minha avó me chamar para fazer pão com ela ou recolher os ovos no galinheiro. Ela gostava de me carregar junto.
E eu a carrego, até hoje, para todos os lugares. Ela está no meu aperto de mão e no meu sorriso sincero. Ela está.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

De como escrever

Quer escrever, mas o papel em branco parece-lhe assustador. Pega o que precisa, senta no sofá e começa a tentar ter ideias. Imagina cenas, personagens, desfechos. Rabisca três inícios diferentes.  Come unha, levanta, anda, abre a geladeira, come uma maçã e uma massa. Que difícil que é. Talvez se fizesse algo do tipo fluxo de consciência. Não, soaria meio manjado. Ou quem sabe uma coisa bem crítica – tanta ladroagem na política.
É interessante como alguém tão leitor não consegue unir pensamentos coerentemente para montar uma história.  Uma luz: metalinguagem seria o caminho perfeito. Nada como um meta-texto para preencher o vazio. É só dizer o que deveria e não deveria haver em um bom texto. Só que, na verdade, não gosta desse tema. Detesta, aliás. Acha tagarelice demais.
A vontade de se tornar um escritor é antiga. Na época da faculdade, porém, ela cresceu. Ficava embevecido ao ouvir histórias sobre grandes obras literárias, contadas pelos professores.  Certa vez até perguntou para uma professora do curso de Letras se ela escrevia. “São coisas diferentes”. “Como assim? Então quem trabalha com isso não é capaz de produzir?”. Demorou até que compreendesse. Agora sabe perfeitamente o que aquilo queria dizer.
No fundo, a causa real dessa dificuldade é a seguinte: não admite algo ruim. As dezenas de autores de altíssima qualidade que já leu, desde a infância, fizeram nascer um espírito crítico que o reprime mesmo só de pensar em escrever uma história fraca. Para ser sincero, possui, bem no fundo da memória, uma boa trama, que deu conta de inventar com o tempo. Uma carta na manga. O duro é materializá-la. Só que a julga muito trivial. Além do que, o final está incompleto.
Mas uma coisa é certa, metalinguagem está fora de cogitação.

domingo, 20 de outubro de 2013

A bênção, Vinicius

Escrevo sobre Vinicius de Moraes um dia depois de seu centenário. Devia ter feito ontem. É que meu tempo também é quando.
E achei perfeito o dia de ontem ter sido um sábado. Combina bem com Vinicius. Pedro Nava, em suas memórias, ao falar do amigo carioca, associa-o ao momento mais boêmio de sua juventude, em Belo Horizonte. E, a propósito, foi em noite de sábado que Nava, com seus amigos, adentrou pela primeira vez um mundo que não lhe pertenceria. As agitações noturnas dos tempos universitários lá ficaram, não acompanharam os anos trabalhosos que o reumatologista Pedro Nava iria enfrentar. O médico e memorialista achava que Vinicius era o homem mais livre que ele conhecera. Drummond, que, aliás, participava do mesmo grupo de Nava, dizia que queria ter sido Vinicius. Talvez, por causa deste sentimento de liberdade que ele inspirava nos outros.
Chico Buarque, no filme que leva o nome do poeta, faz a seguinte pergunta: “Onde estaria Vinicius de Moraes hoje em dia?” A indagação é no sentido de que o desprendimento com o qual ele levava a vida, provavelmente, não caberia na mesquinhez da atualidade. Ainda na referida película, Edu Lobo revela que seu parceiro musical – Vinicius era um sujeito de parcerias (musicais e amorosas, diga-se de passagem): ele agregava, como um ímã, uma antena, uma luz incandescente acesa – ligava para, simplesmente, perguntar como as pessoas estavam.
Por outro lado, Toquinho diz ter aprendido com seu mestre a ser disciplinado, respeitar horários, calendários. Isso pode parecer antagônico, eu sei. Mas para que paradoxo maior do que pensar um ser humano tão solto foi o melhor sonetista do Brasil? O soneto é rigoroso, porém com Vinicius ele entrou no samba, aprendeu a permanecer comportado, com o máximo de leveza, sensibilidade e alegria que ele podia ter.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Visão

olhou para o look dela e
viu porque tantos
olhares a observavam. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A gata e a coruja

Aproximava-se o momento daquela movimentação geral; cada animal procurava ansiosamente seu lar, juntar-se aos seus. 18 horas. Em meio ao agito todo, do vem e vai, esbarram-se gata e coruja – era uma coruja macho. Aquela, a princípio, nada entendeu: “Quem esta coruja pensa que é para esbarrar em mim deste jeito?”, pensou ela; desconfiada, fitava os grandes olhos de coruja. Esta, apenas parou com toda sua aparente tranquilidade (pois por dentro estava tão agitada quanto os outros que corriam) e, com olhos de coruja, sorriu.
Pouco fazia diferença para a gata e a coruja aquela correria toda. Na verdade, seus lares nem abrigariam tanto quanto aquele repentino encontro, pois, de fato, não haviam abrigado verdadeiramente a cada entardecer há muitos anos.
Muitos animais observavam o encontro com cobiça; uns com inveja, pois não se permitiam esbarrar por aí; outros com frieza, pois nada sentiam; outros ficavam curiosos; alguns puros e de bom coração, sorriam. Já o elefante, que acompanhava de longe a cena, pensava: “Engraçado, jurava já ter presenciado este encontro antes, devo mesmo estar virando um velho maluco”. De fato, o elefante com toda sua sabedoria, sensitividade e espiritualidade estava certo, este encontro já acontecia há centenas de anos, eles não sabiam, mas havia neles a capacidade ímpar de sentir.
Aos poucos, gata e coruja aproximavam-se; a gata caminhava desconfiada em círculos, como em uma dança envolvente, queria se apropriar de cada detalhe da coruja que silenciosamente achava aquilo um tanto interessante. Logo a coruja também se pôs a investigar a gata e tentava transcender o silêncio falando de variadas formas que a linguagem possa permitir.
Gata e coruja passaram a se encontrar todos os dias. Ao entardecer procuravam ansiosamente uma pela outra e a cada encontro cresciam, uniam-se, aprendiam e construíam um vínculo que tomou o lugar de um lar: a cada encontro abrigavam-se. Não demorou muito para que a coruja virasse luz. A gata admirava tanto a coruja que a achava o animal mais cativante que já havia conhecido; ela queria que os outros animais soubessem quem de fato era a coruja, tão sincera, simples, de bom coração, respeitosa, cuidadora, fiel; a coruja, porém, nem mais se importava, apenas bastava poder compartilhar sua sabedoria.
A gata também era admirada pela coruja, que nunca mais deixou de querer sua doce presença. Era, para a coruja, uma gata diferente de todas as outras gatas; era sensível, protetora, preocupada, era linda e tinha um pelo macio, um jeito envolvente e apaixonante; mas era também fiel, leal, cuidava maternamente daquele lar e não iria mais embora.
Então coruja e gata passaram a cuidar uma da outra pelos restos dos anos. E a cada dia 06, às 18 horas, elas festejavam.
Reza a lenda que muito se desejou que o encontro não mais acontecesse, mas a gata e a coruja eram muito fortes. E de bom coração.
(Fernanda Balem Tagliari)


terça-feira, 23 de julho de 2013

Televisão

Um doutor em literatura é convidado para conceder entrevista a um programa de variedades, vespertino. Ressabiado, ele vai.
- Então, senhor Jarbas? Conte um pouco de seu novo trabalho pra gente!
- Meu estudo, Mônica, é sobre a influência da cultura japonesa na poesia de Paulo Leminski e outros escritores que viram nos Haikais uma nova forma de expressão, mais rápida, buscando atingir a essência da palavra. O resultado foi que...
- Mas que interessante, né, senhor Jarbas? Ouvi o senhor falar de poesia... Gosto tanto de poesia! Minha mãe sempre me falava algumas: “Batatinha quando nasce...”.
- O que você começou a declamar, Mônica, é uma quadrinha popular. As quadrinhas são trovas simples criadas pelo povo. Compostas por quatro versos (dai vem o nome) se caracterizam por possuir rimas muitas vezes imperfeitas e escritas de forma incorreta...
Mas uma vez, a apresentadora interrompe:
- Como tá bacana o programa hoje, pessoal! Vamos falar rapidinho sobre o nosso patrocinador? As lavadoras de roupas Masters of Washing deixam...
Através do ponto eletrônico, a apresentadora recebeu um toque do diretor, dizendo que a audiência do programa estava caindo: era preciso deixar a entrevista mais interessante ao povo.
- E nas horas vagas, o que o senhor gosta de fazer?
- Bem, disse ele já meio assustado, eu leio, escrevo, ouço música...
- E uma baladinha, às vezes, rola?
- Como?
- Haha! E como, né, senhor Jarbas?! Mas o pessoal tá doido pra saber: e esse coraçãozinho tem dona?
- Oi?
- Ah, não tá querendo falar... É porque tem coisa aí.
- Não entendo...
- Mas vamos agradecer ao senhor Jarbas pela visita hoje no Tardes e Variedades. Dá beijinho aqui. E daqui a pouco vocês não podem perder! A coleção primavera-verão das novas roupinhas para ramsters, que vão deixar seu bichinho ainda mais fofo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

Scketch - Quem manda

O dia é de faxina.
- Paulo, você limpa o quarto e eu vou fazendo o almoço.
Depois:
- Tá, agora, querido, vai lavando a louça.
- E você?
- Eu guardo a comida.
- Pô Márcia, só você que manda. Que saco!
- Tudo bem, Paulo. Fala o que a gente vai fazer agora.
- Eu limpo os calçados e você, os armários.
- Ok, amor, pode ser. Mas primeiro organiza a lavanderia, que tá uma bagunça.
- Sim, amor.
Mas ele estava contente: finalmente tinha mandado em alguma coisa.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Vida: há dois (que são um)

Não tenho muito que levar para nosso novo lar, meu amor. Uns livros, talvez, uns discos, papéis, calças, calçados, canetas e, caso você deixe, um rádio velho que era do meu avô. Este trazia música para casa, com sua gaita de boca. Aquele enchia os cômodos de alegria, através de suas ondas, que conseguiam atingir até mesmo a longínqua estância de interior do interior onde minha família morava.
O rádio já não funciona e não consegui aprender gaita (meu avô tinha o sonho de ensiná-la a algum neto), contudo prometo que breves acordes soarão do meu violão (é mesmo, mais uma coisinha pra levar), sempre que a gente precise de um pouco a mais de alegria.
Carrego comigo, também, algumas palavras. Elas são tão importantes, meu amor... faladas, sussurradas, escritas, insinuadas, cantadas, silenciadas, quando preciso for. Porém, desejo juntar as que eu tenho com as suas, pois meu corpo anseia por suas expressões, impressões. E penso que este já é um passo para sermos dois e, simultaneamente, um. União, unidade, congregação, integração. É a celebração de uma soma cujo resultado nos repleta um do outro e uma espécie de entidade. A propósito, sabia que eu adoro aquele jogo de resta um que você tem?
Que tal fazermos faxina juntos, enquanto ouvimos uma música? (Ainda vou fazer o rádio funcionar!) Jogo alvejante nos banheiros e você, água no balde. Depois, vem o jantar. Eu faço o arroz e você, a salada. Ou eu o feijão e você, o arroz. Aliás, acho que somos feijão e arroz! De sobremesa, seria bom queijo com goiabada. Pensando bem, somos também queijo e goiabada! Que delícia que é nossa existência em comum!
Nosso amor é um armário, por assim dizer, cheio de coisas gostosas, que se completam.

domingo, 30 de junho de 2013

Dan X Dante

Vi uma entrevista do Dan Brown, na televisão, sobre seu novo livro, Inferno. Fiquei cismado. A repórter perguntou sobre quais tipos de livros ele gostava de ler. A resposta foi que sua preferência era por textos informativos, realistas. Ou seja, o referido escritor não curte muito literatura.
Não citou Hemingway ou Dickinson (seu conterrâneos), Dostoiévski ou Kafka, Gabriel Garcia Marquez ou Fernando Pessoa. Nem mesmo Dante Alighieri! Será que ele leu a Divina Comédia? Será que ele conseguiu adentrar os níveis dantescos, contados em tercetos, poeticamente?
Acho que não. E o porquê da minha afirmação é fácil de explicar: Dan Brown não produz arte. Literatura é arte. O que ele faz é contar histórias, sem preocupação com o bom uso das palavras. E como as coisas do mundo são paradoxais, ele decide escrever a partir de poesia, talvez o gênero literário mais complexo de todos.  
Espero que, pelo menos, os muitos seguidores de Robert Langdon – personagem das tramas de Brown – possam se interessar um pouco por Dante (o escritor e o personagem).
Eu leio Dante Alighieri, mas não leio Dan Brown. 

Dante Alighieri


Macaquices


terça-feira, 25 de junho de 2013

Sketches - Manifestações

Um casal havia brigado por causa das passeatas, porque tinham insatisfações diferentes. Ela era a favor de uma redução maior de passagem. Ele queria protestar contra a corrupção. Portanto, andavam em grupos distintos.
Lá pelas tantas, encontraram-se e trocaram olhares: deu vontade de ir para casa... reconciliar. Contaram quanto dinheiro tinham para o ônibus.
- Nossa, disse ele. Exatamente R$ 3,00.
Ela olhou com uma cara de quem diz: “Tá vendo? Se não fosse a minha passeata, a gente não podia ir pra casa”.
Ele respondeu com cara de: “Você acha que sempre tem razão”.
E cada um seguiu para um lado.

***

Em um bar, o piadista Mauro, em tom sério, pergunta:
- Aí rapaziada, diz que hoje a Dilma estava no meio dos manifestantes, disfarçada.
- De quê?
- De mulher.
Esse Mauro não tinha jeito mesmo.
Só quem não riu foi uma mulher, que estava num canto do bar, tomando uma Caracu.  

***

O rapaz fazia uma manifestação diferente, em meio à multidão. O cartaz dele dizia: “Faço sexo nasal”.
Um repórter, que por ali passava, achando o anúncio engraçado e querendo entrar no clima que julgava descontraído, perguntou ao inusitado manifestante:
- Ativo ou passivo?
O rapaz, sério, disse:
- Nasivo.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Relicário

Nando Reis questiona:

O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou 

Pois, o que está acontecendo? Esse tipo de mobilização que tem ocorrido, pra mim, é novidade. 
Já tínhamos visto conflitos em tempos de regime militar e de impeachment, passeatas a favor da liberação da maconha e do casamento gay, mas tanta gente reunida, em tantos lugares diferentes do Brasil e do mundo é algo novo. Sem contar que tudo começou por causa do aumento da passagem de ônibus em São Paulo. Por R$ 3,20, a revolução! Acordamos? O ônibus virou uma espécie de relicário para os nossas esperanças?
Em países como a Argentina, os ajuntamentos e panelaços de protesto já se tornaram famosos. Os brasileiros, no entanto, sempre foram considerados pacíficos, submissos, que já fizeram e continuam fazendo certos movimentos populares bem pontuais, porém sem algo mais profundo em termos sociais, políticos, econômicos. E agora, de repente, isso. Com a ajuda do facebook e da mídia em geral, uma onda de protestos vem se espalhando por aí. 
Gosto disso! Mas tenho refletido sobre a demora até que isso acontecesse. Foram precisos alguns reais a menos no bolso do povo para um despertar repentino. Antes tarde do que... mais tarde. Acho que uma hora ou outra isso iria explodir, no entanto, por que a revolução não começou com outros absurdos mais significativos para o país, como as trapalhadas e o descaso com a educação? Ou com a saúde? Ou com a segurança pública? 
O fato é que a coisa está rolando. E onde vai parar? Com a quantidade de revoltados – oriundos das mais diversas insatisfações – que vêm aderindo ao movimento, parece que tudo isso ainda vai render. Agora, vale tudo: pessoas irritadas com Dilma, medidas provisórias, copa do mundo, olimpíadas, Felipão, Feliciano; há ainda os que querem logo o Windows 8, o Galvão Bueno fora, o Yakult de dois litros; sem contar aquele maluco que não faz a mínima ideia do que está acontecendo e apenas engrossa o caldo com sua presença sem-noção.
Talvez parte da população tenha (finalmente) reparado que o mundo está ao contrário e viu que é hora de agir; quer embarcar em um país com uma passagem de preço justo e mais recursos para uma vida digna. E, mesmo os viajantes clandestinos, que estão apenas se divertindo e/ou aproveitando para matar o trabalho e aparecer na televisão, devem ser respeitados. Estes, quem sabe, possuem um leve pressentimento de que algo não está certo e é preciso mudança. Neste caso, pensando bem, eles são mais importantes do que os que se dizem politizados. Muitos destes, mesmo tendo uma visão mais ampla e crítica do derredor, preferem, às vezes, permanecer inertes. 


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Policromia

Para Fernanda

Do desenho do
teu rosto
saem cores.
E o preto-e-branco
da minha vida
ganha nuances de
você.

terça-feira, 7 de maio de 2013

"Via-Láctea": um novo caminho no Parnasianismo

Os parnasianos já foram bastante criticados por muitos, por manterem preocupações demasiadas em relação à forma dos seus poemas, em detrimento do conteúdo. Em parte tal afirmação procede, quando lemos, por exemplo, Vaso Chinês, do Alberto de Oliveira. No entanto, ao nos deparamos com certos textos de Olavo Bilac, por exemplo, percebemos que o Parnasianismo pode ir além de meras descrições de objetos e descobrimos o porquê de Bilac receber a alcunha de "Príncipe dos poetas". O livro Via-Láctea mostra bem essa ideia. É claro que, nele, certos preceitos parnasianos estão presentes: a obra é de sonetos (uma poética forma clássica), há a presença de versos decassílabos etc. Mas a monotonia de um vaso sobre uma cômoda dá lugar a momentos de inspiração e beleza, com a ótima combinação de palavras, característica de Bilac.
Talvez o texto mais conhecido do livro seja o XIII, o qual as pessoas chamam, comumente, de "Ouvir estrelas":


Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!”  E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...


E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila.  E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.


Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?  Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”


E eu vos direi:”Amai para entende-las!
Pois  quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Parece-me que ele se tornou mesmo o carro-chefe, dentre os 35 sonetos que compõem a publicação. Nele, acompanhamos o diálogo entre o eu-lírico e seu interlocutor, que não entende como é possível alguém "ouvir estrelas". A resposta para este questionamento é simples: só os amantes podem "ouvir e entender as estrelas". 
A leveza dos termos escolhidos ("pálio", "cintila"), parece vir ao encontro do tema "aéreo" proposto. Esta simbiose, mesclada às rimas ricas e às aliterações transportam o leitor, com delicadeza, a outro plano (à Via-Láctea?). 
E, aqueles que desejarem dizer o soneto em voz alta, têm algumas opções. O ritmo de leitura pode obedecer a métrica utilizada (a força está na última sílaba tônica de cada verso). Acredito que esta seja a maneira mais adequada de se falar o texto, tendo em vista que estamos falando de um poema, como uma estrutura pensada para o gênero. O autor, entretanto, escreve com tanta naturalidade que, facilmente, caímos na tentação sucumbir a uma levada de prosa. 
Há muito se atribui boa parte da iluminação bilaquiana a uma senhora de nome Amélia. Era ela irmã de Alberto de Oliveira, grande amigo do "Príncipe". Diz-se que Olavo Bilac e Amélia se amavam profundamente, mas foram impedidos de concretizar seu amor, por conta de convenções sociais. Foi-se a história dos dois, ficaram os poemas. Sorte nossa!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Revoar

Para Fernanda


Nosso amor é.
Sempre foi.
Um (re) encontro de dois corações
Alados.
Voam juntos
Para um dia
(Re) pousarem
Em alguma eternidade.


terça-feira, 5 de março de 2013

São Paulo

Fui a São Paulo.
Sim, sei o que você acabou de pensar: poluição, engarrafamento, violência etc. Caos, enfim.
Pois vou lhe dizer uma coisa: não se deixe levar pela mídia, apenas. Ela precisa chamar a atenção com suas chamadas espetaculares e programas especulativos. As pessoas que se impressionam com as notícias (negativas) que vêm da maior cidade do Brasil podem deixar de conhecer a maior cidade do Brasil.
Não se deve negar os eventuais problemas, de diversas ordens, que São Paulo carrega. E são muitos. O que esperar, no entanto, de uma cidade cosmopolita com dez milhões de pessoas? É a lei da proporcionalidade, queridos! O estado inteiro de Santa Catarina tem sete milhões (mais ou menos) e tem sofrido uma onda de vandalismo sem precedentes. Eu, como catarinense, diante disso, não abro mais a boca para falar de qualquer lugar nenhum.
Mas o que eu quero dizer mesmo é que passei três dias maravilhosos na cidade de Mário de Andrade. Aliás, senti a presença dele quando adentrei o Teatro Municipal e percorri seus corredores, como fez o criador de Macunaíma, em 1922. “Encontrei” Niemeyer no Ibirapuera, vi a diversidade da Augusta no sábado à noite, contemplei a paz do Brooklin da janela do apartamento de amigos. Fiz tudo isso na companhia do meu amigo Mário (outro?!) e do meu amor, Fernanda, que potencializaram todas as minhas emoções.
Não era minha primeira vez lá, então não senti dura a poesia concreta das esquinas. Por outro lado, acho que São Paulo tem sempre um ar de novidade, por não se permitir parar nunca. Portanto, corramos atrás!

Teatro Municipal (SP)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os inimigos do silêncio


Rainer Maria Rilke,    em  Cartas a um jovem poeta,  seu mais conhecido     livro,  diz  a  seu interlocutor, um poeta iniciante e inseguro, que a escrita deve ser  uma   necessidade.  Se for assim, tem razão de ser.
Concordo que ninguém deve se reprimir diante de um desejo, neste caso, de produção literária. Mas tenho ressalvas em relação àqueles que publicam qualquer coisa que escrevem. Os autores e os editores poderiam ser mais criteriosos antes de fazer com que leitores percam tempo diante de um texto incipiente e a natureza sofra com árvores de menos e lixo de mais.

Há casos de pessoas extremamente cuidadosas e que não deixam qualquer coisa virar livro. Horácio, um pensador romano que escreveu sua Arte poética, dizia que, para saber se um texto tem qualidade e potencial para se tornar um clássico, é só guardá-lo em uma gaveta e esperar nove anos. Após esse tempo, se as palavras ainda têm sentido, é porque são dignas de irem a público. Obviamente, isso é uma metáfora para separar o relevante do fraco (ou seria “frasco”, por causa da superficialidade?).  
O filme americano Encontrando Forrester conta a história de um idoso – Willian Forrester – que vive isolado em seu apartamento, quase sem contato com o mundo exterior. E ele tem outro dado biográfico peculiar: escreveu na vida somente um livro. Entretanto a obra é referência no cenário acadêmico. O “ermitão” acaba sendo descoberto por um adolescente com aspirações literárias. Os dois, então, dividem a paixão pela escrita, bem como suas angústias e medos. O rapaz fica intrigado pelo fato de que, mesmo seu amigo sendo sucesso de público e crítica, não se interessa em continuar a carreira. A resposta é bem simples. Ele não encontrou mais nada que valesse a pena.
A (velha) verdade é que a quantidade realmente não importa na literatura. Manuel Antônio de Almeida, por exemplo, só precisou de um romance para entrar para a história. Por ter tido morte prematura, ele teve tempo de publicar, unicamente, Memórias de um sargento de milícias. É certo que não foi por escolha, mas será que, se tivesse continuado, conseguiria manter o mesmo nível de inovação de seu famoso romance? O contemporâneo Raduam Nassar teve o que dizer em três oportunidades. E disse. Duas delas são os incríveis Um copo de cólera e Lavoura Arcaica, dois momentos que podem deliciar qualquer leitor. Raduan hoje vive em um sítio e parou de publicar.
Existem ainda os que até publicam bastante, entretanto acabam tendo seus nomes associados a um livro somente. São os casos de Raul Pompéia e O Ateneu, Bernardo Guimarães e A escrava Isaura, Aluisio Azevedo e O cortiço, entre outros. Nem todo mundo tem tanto a dizer quanto, por exemplo, Machado de Assis, Fernado Pessoa, José Saramago, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Mas, na falta de boas ideias, é só ficar quieto e enonomizar tudo e todos. Eu adoro o silêncio.