domingo, 30 de junho de 2013

Dan X Dante

Vi uma entrevista do Dan Brown, na televisão, sobre seu novo livro, Inferno. Fiquei cismado. A repórter perguntou sobre quais tipos de livros ele gostava de ler. A resposta foi que sua preferência era por textos informativos, realistas. Ou seja, o referido escritor não curte muito literatura.
Não citou Hemingway ou Dickinson (seu conterrâneos), Dostoiévski ou Kafka, Gabriel Garcia Marquez ou Fernando Pessoa. Nem mesmo Dante Alighieri! Será que ele leu a Divina Comédia? Será que ele conseguiu adentrar os níveis dantescos, contados em tercetos, poeticamente?
Acho que não. E o porquê da minha afirmação é fácil de explicar: Dan Brown não produz arte. Literatura é arte. O que ele faz é contar histórias, sem preocupação com o bom uso das palavras. E como as coisas do mundo são paradoxais, ele decide escrever a partir de poesia, talvez o gênero literário mais complexo de todos.  
Espero que, pelo menos, os muitos seguidores de Robert Langdon – personagem das tramas de Brown – possam se interessar um pouco por Dante (o escritor e o personagem).
Eu leio Dante Alighieri, mas não leio Dan Brown. 

Dante Alighieri


Macaquices


terça-feira, 25 de junho de 2013

Sketches - Manifestações

Um casal havia brigado por causa das passeatas, porque tinham insatisfações diferentes. Ela era a favor de uma redução maior de passagem. Ele queria protestar contra a corrupção. Portanto, andavam em grupos distintos.
Lá pelas tantas, encontraram-se e trocaram olhares: deu vontade de ir para casa... reconciliar. Contaram quanto dinheiro tinham para o ônibus.
- Nossa, disse ele. Exatamente R$ 3,00.
Ela olhou com uma cara de quem diz: “Tá vendo? Se não fosse a minha passeata, a gente não podia ir pra casa”.
Ele respondeu com cara de: “Você acha que sempre tem razão”.
E cada um seguiu para um lado.

***

Em um bar, o piadista Mauro, em tom sério, pergunta:
- Aí rapaziada, diz que hoje a Dilma estava no meio dos manifestantes, disfarçada.
- De quê?
- De mulher.
Esse Mauro não tinha jeito mesmo.
Só quem não riu foi uma mulher, que estava num canto do bar, tomando uma Caracu.  

***

O rapaz fazia uma manifestação diferente, em meio à multidão. O cartaz dele dizia: “Faço sexo nasal”.
Um repórter, que por ali passava, achando o anúncio engraçado e querendo entrar no clima que julgava descontraído, perguntou ao inusitado manifestante:
- Ativo ou passivo?
O rapaz, sério, disse:
- Nasivo.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Relicário

Nando Reis questiona:

O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou 

Pois, o que está acontecendo? Esse tipo de mobilização que tem ocorrido, pra mim, é novidade. 
Já tínhamos visto conflitos em tempos de regime militar e de impeachment, passeatas a favor da liberação da maconha e do casamento gay, mas tanta gente reunida, em tantos lugares diferentes do Brasil e do mundo é algo novo. Sem contar que tudo começou por causa do aumento da passagem de ônibus em São Paulo. Por R$ 3,20, a revolução! Acordamos? O ônibus virou uma espécie de relicário para os nossas esperanças?
Em países como a Argentina, os ajuntamentos e panelaços de protesto já se tornaram famosos. Os brasileiros, no entanto, sempre foram considerados pacíficos, submissos, que já fizeram e continuam fazendo certos movimentos populares bem pontuais, porém sem algo mais profundo em termos sociais, políticos, econômicos. E agora, de repente, isso. Com a ajuda do facebook e da mídia em geral, uma onda de protestos vem se espalhando por aí. 
Gosto disso! Mas tenho refletido sobre a demora até que isso acontecesse. Foram precisos alguns reais a menos no bolso do povo para um despertar repentino. Antes tarde do que... mais tarde. Acho que uma hora ou outra isso iria explodir, no entanto, por que a revolução não começou com outros absurdos mais significativos para o país, como as trapalhadas e o descaso com a educação? Ou com a saúde? Ou com a segurança pública? 
O fato é que a coisa está rolando. E onde vai parar? Com a quantidade de revoltados – oriundos das mais diversas insatisfações – que vêm aderindo ao movimento, parece que tudo isso ainda vai render. Agora, vale tudo: pessoas irritadas com Dilma, medidas provisórias, copa do mundo, olimpíadas, Felipão, Feliciano; há ainda os que querem logo o Windows 8, o Galvão Bueno fora, o Yakult de dois litros; sem contar aquele maluco que não faz a mínima ideia do que está acontecendo e apenas engrossa o caldo com sua presença sem-noção.
Talvez parte da população tenha (finalmente) reparado que o mundo está ao contrário e viu que é hora de agir; quer embarcar em um país com uma passagem de preço justo e mais recursos para uma vida digna. E, mesmo os viajantes clandestinos, que estão apenas se divertindo e/ou aproveitando para matar o trabalho e aparecer na televisão, devem ser respeitados. Estes, quem sabe, possuem um leve pressentimento de que algo não está certo e é preciso mudança. Neste caso, pensando bem, eles são mais importantes do que os que se dizem politizados. Muitos destes, mesmo tendo uma visão mais ampla e crítica do derredor, preferem, às vezes, permanecer inertes. 


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Policromia

Para Fernanda

Do desenho do
teu rosto
saem cores.
E o preto-e-branco
da minha vida
ganha nuances de
você.