terça-feira, 23 de julho de 2013

Televisão

Um doutor em literatura é convidado para conceder entrevista a um programa de variedades, vespertino. Ressabiado, ele vai.
- Então, senhor Jarbas? Conte um pouco de seu novo trabalho pra gente!
- Meu estudo, Mônica, é sobre a influência da cultura japonesa na poesia de Paulo Leminski e outros escritores que viram nos Haikais uma nova forma de expressão, mais rápida, buscando atingir a essência da palavra. O resultado foi que...
- Mas que interessante, né, senhor Jarbas? Ouvi o senhor falar de poesia... Gosto tanto de poesia! Minha mãe sempre me falava algumas: “Batatinha quando nasce...”.
- O que você começou a declamar, Mônica, é uma quadrinha popular. As quadrinhas são trovas simples criadas pelo povo. Compostas por quatro versos (dai vem o nome) se caracterizam por possuir rimas muitas vezes imperfeitas e escritas de forma incorreta...
Mas uma vez, a apresentadora interrompe:
- Como tá bacana o programa hoje, pessoal! Vamos falar rapidinho sobre o nosso patrocinador? As lavadoras de roupas Masters of Washing deixam...
Através do ponto eletrônico, a apresentadora recebeu um toque do diretor, dizendo que a audiência do programa estava caindo: era preciso deixar a entrevista mais interessante ao povo.
- E nas horas vagas, o que o senhor gosta de fazer?
- Bem, disse ele já meio assustado, eu leio, escrevo, ouço música...
- E uma baladinha, às vezes, rola?
- Como?
- Haha! E como, né, senhor Jarbas?! Mas o pessoal tá doido pra saber: e esse coraçãozinho tem dona?
- Oi?
- Ah, não tá querendo falar... É porque tem coisa aí.
- Não entendo...
- Mas vamos agradecer ao senhor Jarbas pela visita hoje no Tardes e Variedades. Dá beijinho aqui. E daqui a pouco vocês não podem perder! A coleção primavera-verão das novas roupinhas para ramsters, que vão deixar seu bichinho ainda mais fofo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

Scketch - Quem manda

O dia é de faxina.
- Paulo, você limpa o quarto e eu vou fazendo o almoço.
Depois:
- Tá, agora, querido, vai lavando a louça.
- E você?
- Eu guardo a comida.
- Pô Márcia, só você que manda. Que saco!
- Tudo bem, Paulo. Fala o que a gente vai fazer agora.
- Eu limpo os calçados e você, os armários.
- Ok, amor, pode ser. Mas primeiro organiza a lavanderia, que tá uma bagunça.
- Sim, amor.
Mas ele estava contente: finalmente tinha mandado em alguma coisa.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Vida: há dois (que são um)

Não tenho muito que levar para nosso novo lar, meu amor. Uns livros, talvez, uns discos, papéis, calças, calçados, canetas e, caso você deixe, um rádio velho que era do meu avô. Este trazia música para casa, com sua gaita de boca. Aquele enchia os cômodos de alegria, através de suas ondas, que conseguiam atingir até mesmo a longínqua estância de interior do interior onde minha família morava.
O rádio já não funciona e não consegui aprender gaita (meu avô tinha o sonho de ensiná-la a algum neto), contudo prometo que breves acordes soarão do meu violão (é mesmo, mais uma coisinha pra levar), sempre que a gente precise de um pouco a mais de alegria.
Carrego comigo, também, algumas palavras. Elas são tão importantes, meu amor... faladas, sussurradas, escritas, insinuadas, cantadas, silenciadas, quando preciso for. Porém, desejo juntar as que eu tenho com as suas, pois meu corpo anseia por suas expressões, impressões. E penso que este já é um passo para sermos dois e, simultaneamente, um. União, unidade, congregação, integração. É a celebração de uma soma cujo resultado nos repleta um do outro e uma espécie de entidade. A propósito, sabia que eu adoro aquele jogo de resta um que você tem?
Que tal fazermos faxina juntos, enquanto ouvimos uma música? (Ainda vou fazer o rádio funcionar!) Jogo alvejante nos banheiros e você, água no balde. Depois, vem o jantar. Eu faço o arroz e você, a salada. Ou eu o feijão e você, o arroz. Aliás, acho que somos feijão e arroz! De sobremesa, seria bom queijo com goiabada. Pensando bem, somos também queijo e goiabada! Que delícia que é nossa existência em comum!
Nosso amor é um armário, por assim dizer, cheio de coisas gostosas, que se completam.