Para Fernanda
Do desenho do
teu rosto
saem cores.
E o preto-e-branco
da minha vida
ganha nuances de
você.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
"Via-Láctea": um novo caminho no Parnasianismo
Os
parnasianos já foram bastante criticados por muitos, por manterem preocupações
demasiadas em relação à forma dos seus poemas, em detrimento do conteúdo. Em
parte tal afirmação procede, quando lemos, por exemplo, Vaso Chinês, do Alberto de
Oliveira. No entanto, ao nos deparamos com certos textos de Olavo Bilac, por
exemplo, percebemos que o Parnasianismo pode ir além de meras descrições de
objetos e descobrimos o porquê de Bilac receber a alcunha de "Príncipe dos
poetas". O livro Via-Láctea mostra
bem essa ideia. É claro que, nele, certos preceitos parnasianos estão presentes:
a obra é de sonetos (uma poética forma clássica), há a presença de versos
decassílabos etc. Mas a monotonia de um vaso sobre uma cômoda dá lugar a momentos
de inspiração e beleza, com a ótima combinação de palavras, característica de
Bilac.
Talvez
o texto mais conhecido do livro seja o XIII, o qual as pessoas chamam,
comumente, de "Ouvir estrelas":
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi:”Amai para entende-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
Parece-me que ele se
tornou mesmo o carro-chefe, dentre os 35 sonetos que compõem a publicação. Nele,
acompanhamos o diálogo entre o eu-lírico e seu interlocutor, que não entende
como é possível alguém "ouvir estrelas". A resposta para este
questionamento é simples: só os amantes podem "ouvir e entender as
estrelas".
A
leveza dos termos escolhidos ("pálio", "cintila"), parece
vir ao encontro do tema "aéreo" proposto. Esta simbiose, mesclada às
rimas ricas e às aliterações transportam o leitor, com delicadeza, a outro
plano (à Via-Láctea?).
E,
aqueles que desejarem dizer o soneto em voz alta, têm algumas opções. O ritmo
de leitura pode obedecer a métrica utilizada (a força está na última sílaba
tônica de cada verso). Acredito que esta seja a maneira mais adequada de se
falar o texto, tendo em vista que estamos falando de um poema, como uma
estrutura pensada para o gênero. O autor, entretanto, escreve com tanta
naturalidade que, facilmente, caímos na tentação sucumbir a uma levada de
prosa.
Há
muito se atribui boa parte da iluminação bilaquiana a uma senhora de nome
Amélia. Era ela irmã de Alberto de Oliveira, grande amigo do "Príncipe".
Diz-se que Olavo Bilac e Amélia se amavam profundamente, mas foram impedidos de
concretizar seu amor, por conta de convenções sociais. Foi-se a história
dos dois, ficaram os poemas. Sorte nossa!
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Revoar
Para Fernanda
Nosso amor é.
Sempre foi.
Um (re) encontro de dois corações
Alados.
Voam juntos
Para um dia
(Re) pousarem
Em alguma eternidade.
terça-feira, 5 de março de 2013
São Paulo
Fui a São Paulo.
Sim, sei o que você acabou de pensar: poluição, engarrafamento, violência etc. Caos, enfim.
Pois vou lhe dizer uma coisa: não se deixe levar pela mídia, apenas. Ela precisa chamar a atenção com suas chamadas espetaculares e programas especulativos. As pessoas que se impressionam com as notícias (negativas) que vêm da maior cidade do Brasil podem deixar de conhecer a maior cidade do Brasil.
Não se deve negar os eventuais problemas, de diversas ordens, que São Paulo carrega. E são muitos. O que esperar, no entanto, de uma cidade cosmopolita com dez milhões de pessoas? É a lei da proporcionalidade, queridos! O estado inteiro de Santa Catarina tem sete milhões (mais ou menos) e tem sofrido uma onda de vandalismo sem precedentes. Eu, como catarinense, diante disso, não abro mais a boca para falar de qualquer lugar nenhum.
Mas o que eu quero dizer mesmo é que passei três dias maravilhosos na cidade de Mário de Andrade. Aliás, senti a presença dele quando adentrei o Teatro Municipal e percorri seus corredores, como fez o criador de Macunaíma, em 1922. “Encontrei” Niemeyer no Ibirapuera, vi a diversidade da Augusta no sábado à noite, contemplei a paz do Brooklin da janela do apartamento de amigos. Fiz tudo isso na companhia do meu amigo Mário (outro?!) e do meu amor, Fernanda, que potencializaram todas as minhas emoções.
Não era minha primeira vez lá, então não senti dura a poesia concreta das esquinas. Por outro lado, acho que São Paulo tem sempre um ar de novidade, por não se permitir parar nunca. Portanto, corramos atrás!
Teatro Municipal (SP)
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Os inimigos do silêncio
Rainer Maria Rilke, em Cartas a um jovem poeta, seu mais conhecido livro, diz a seu interlocutor, um poeta iniciante e inseguro, que a escrita deve ser uma necessidade. Se for assim, tem razão de ser.
Concordo que ninguém deve se reprimir diante de um desejo, neste caso, de produção literária. Mas tenho ressalvas em relação àqueles que publicam qualquer coisa que escrevem. Os autores e os editores poderiam ser mais criteriosos antes de fazer com que leitores percam tempo diante de um texto incipiente e a natureza sofra com árvores de menos e lixo de mais.
Há casos de pessoas extremamente cuidadosas e que não deixam qualquer coisa virar livro. Horácio, um pensador romano que escreveu sua Arte poética, dizia que, para saber se um texto tem qualidade e potencial para se tornar um clássico, é só guardá-lo em uma gaveta e esperar nove anos. Após esse tempo, se as palavras ainda têm sentido, é porque são dignas de irem a público. Obviamente, isso é uma metáfora para separar o relevante do fraco (ou seria “frasco”, por causa da superficialidade?).
O filme americano Encontrando Forrester conta a história de um idoso – Willian Forrester – que vive isolado em seu apartamento, quase sem contato com o mundo exterior. E ele tem outro dado biográfico peculiar: escreveu na vida somente um livro. Entretanto a obra é referência no cenário acadêmico. O “ermitão” acaba sendo descoberto por um adolescente com aspirações literárias. Os dois, então, dividem a paixão pela escrita, bem como suas angústias e medos. O rapaz fica intrigado pelo fato de que, mesmo seu amigo sendo sucesso de público e crítica, não se interessa em continuar a carreira. A resposta é bem simples. Ele não encontrou mais nada que valesse a pena.
A (velha) verdade é que a quantidade realmente não importa na literatura. Manuel Antônio de Almeida, por exemplo, só precisou de um romance para entrar para a história. Por ter tido morte prematura, ele teve tempo de publicar, unicamente, Memórias de um sargento de milícias. É certo que não foi por escolha, mas será que, se tivesse continuado, conseguiria manter o mesmo nível de inovação de seu famoso romance? O contemporâneo Raduam Nassar teve o que dizer em três oportunidades. E disse. Duas delas são os incríveis Um copo de cólera e Lavoura Arcaica, dois momentos que podem deliciar qualquer leitor. Raduan hoje vive em um sítio e parou de publicar.
Existem ainda os que até publicam bastante, entretanto acabam tendo seus nomes associados a um livro somente. São os casos de Raul Pompéia e O Ateneu, Bernardo Guimarães e A escrava Isaura, Aluisio Azevedo e O cortiço, entre outros. Nem todo mundo tem tanto a dizer quanto, por exemplo, Machado de Assis, Fernado Pessoa, José Saramago, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Mas, na falta de boas ideias, é só ficar quieto e enonomizar tudo e todos. Eu adoro o silêncio.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Os descendentes
Desde “Meia-noite em Paris” não tinha mais me encantado em uma sala de cinema. Então fui, sem grandes expectativas, ver “Os descendentes”. Tinha lido somente que tem cinco indicações ao Oscar, incluindo a de melhor filme e de melhor ator (George Clooney). Pensei comigo: deve ser um bom filme. Ledo engano. É ótimo! Capaz de atender, talvez, a anseios diversos.
Aos leitores exigentes, o texto é prazeroso de ser lido e bem dosado. Quando a fala se faz necessária, está lá. Quando não, o silêncio entra e contracena com as feições das personagens, representadas por atores talentosos, regidos pelo indefectível George Clooney, o qual, diga-se de passagem, vem demonstrando ser igual a certos vinhos, que têm seu apogeu décadas depois de sua criação.
Para quem costuma apropriar-se das paisagens dos filmes como forma de evasão, no melhor estilo “Vou-me embora pra Pasárgada”, vai se deliciar com o mar do Havaí – espaço escolhido para a trama se realizar –, ao som de uma encantadora trilha sonora, típica da região.
Há quem acredite que a arte possa (ou deva) ter uma espécie de função social. Pois até (ou principalmente) nisso a película é bem-sucedida. Explico. A história contada é a de Matt King (Clooney), um advogado que se depara com uma tragédia na família: a esposa sofre um acidente de barco e fica em estado de coma. O drama aumenta quando a filha mais velha do casal revela ao pai que a mãe tinha um amante. Matt, então, empreende uma viagem para conhecer seu concorrente. No entanto, o que ele descobre no caminho é algo muito maior. Quem, de algum modo, identificar-se com o enredo, poderá economizar um bom dinheiro com terapias. Até porque, apesar do aparente peso que tais temas possuem, eles são abordados com leveza, elegância e humor (!).
E por que o título é “Os descendentes”? Deixo para os expectadores tirarem suas conclusões. Mas me considero descendente de toda a arte que fascina e, por isso, influencia para sempre na minha vida.
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